A FÉ NA RESSURREIÇÃO NO PRIMEIRO TESTAMENTO

No Primeiro Testamento, a ideia de ressurreição está ligada à de imortalidade. Sobretudo, são os gregos que nos legaram a concepção de imortalidade (athanasia) como posse da vida imperecível. Primitivamente pensava-se que se tratava de um privilégio exclusivo dos deuses. Por isso, eles eram também chamados de “os imortais”. Foi Platão quem procurou provar que a alma humana também podia participar desta imortalidade. A morte abriria a porta para a vida imortal. Depois de Platão, outros buscaram aprofundar este pensamento e, nesta busca, nasceram os cultos mistéricos como meios que asseguravam a conquista de uma vida imortal.

O termo grego athanasia, encontrado na septuaginta, não tem correspondente na Bíblia Hebraica. Não é que os hebreus tenham pensado que a pessoa humana, pela morte, voltaria ao nada. Não se duvidava da existência no além-túmulo. Porém, esta vida após a morte se caracterizava por uma profunda tristeza que não poderia merecer o nome de imortalidade. A pessoa, após a morte, descia ao xeol onde levava uma existência desolada, em poeira e escuridão. Apesar desta ideia baseada numa antropologia primitiva, o povo de Israel vai experienciando a presença viva e sempre nova de Yahweh, cuja face vai se revelando historicamente como o Senhor da vida e da morte: “É Yahweh quem faz morrer e viver, faz descer ao xeol e dele subir” (l Sm 2,6; também Dt 32,39). Ele tem poder sobre o xeol  (Am 9,2; Sl l39,8).  Ele resgata a alma da pessoa humana da fossa (Sl l03,4) e lhe dá a vida (Sl 4l,3; 80,l9). Ele não abandona ao xeol a alma dos seus amigos e não os deixa ver a corrupção (Sl l6,l0s).

 

                                         NA LITERATURA SAPIENCIAL

A literatura sapiencial, principalmente, vai desenvolver a concepção de que a verdadeira vida está ligada com a prática da justiça: “Na senda da justiça está a vida; o caminho dos ímpios leva à morte” (Pr l2,28; também Pr l5,24; l9,23, etc.).  O livro da Sabedoria – uma espécie de teologia política dos judeus de Alexandria entre os séculos I e II antes de Cristo -  procura mostrar a identidade do povo judeu em meio à cultura helênica. Esta identidade baseia-se em quatro pilares:

l) A imortalidade (Sb l-5);

2) A sabedoria (Sb 6-9);

3) Uma visão de idolatria (Sb l0-15);

4) Uma visão de libertação (Sb l6-l9).

Partindo do único absoluto, o Deus vivo, o livro da Sabedoria aprofunda a consciência da pertença do povo de Israel a Yahweh, garantidor da vida imortal.  Este povo tem consciência de que sua formação e sua organização são frutos do  ato libertador de Deus que os tirou da escravidão do Egito. Mas não se reduziu à experiência do Êxodo: Deus continuou agindo na história, age  no momento presente  e continuará no futuro. O momento presente é marcado por uma cultura de idolatria e morte. O povo de Deus, porém,  proclama a vida.  A Sabedoria anuncia um “mundo novo”, uma “nova era” em que a harmonia do mundo será o ponto de chegada. A ideia motriz que impulsiona esta dinâmica histórica é a da imortalidade como dom de Deus àqueles que seguem a justiça, “porque a justiça é imortal” (l,l5). E “a vida dos justos está nas mãos de Deus, nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos pareceram morrer; sua partida foi tida como uma desgraça, sua viagem para longe de nós como um aniquilamento, mas eles estão em paz. Aos olhos humanos pareciam cumprir uma pena, mas sua esperança estava cheia de imortalidade” (3,l-4).

Percebemos que a visão teológica desta época fundamenta-se na doutrina da retribuição.  O livro de Jó é o portador do pensamento crítico frente a esta concepção. De qualquer maneira, pela literatura sapiencial,  reconhecemos que o Deus criador não é o autor da morte: “Pois Deus não fez a morte nem tem prazer em destruir os viventes. Tudo criou para que subsista…” (Sb l,l3-l4). São os ídolos que trazem a morte e os que os seguem caminham para a desgraça (l3,l0ss).

 

                                                POUCO A POUCO

A ideia da ressurreição foi se incorporando pouco a pouco à fé de Israel. Anteriormente ao livro da Sabedoria e da literatura sapiencial, encontramos uma série de textos que traduzem a esperança coletiva do povo de forma a expressar a fé em Deus que faz reviver: “Vinde, retornemos a Yahweh. Porque ele despedaçou, ele nos curará; ele feriu, ele nos ligará a ferida. Depois de dois dias nos fará reviver, no terceiro dia nos levantará e nós viveremos em sua presença” (Os 6,l-2). O profeta Ezequiel anuncia que, depois da provação do exílio na Babilônia, Deus ressuscitará o seu povo como os ossos que recobram a vida (Ez 37,l-l4). Deus fará reviver os mortos, fará ressurgir os seus cadáveres e despertar os que habitam no pó  (Is 26,19).

Tudo isso parece ter um sentido metafórico, mas não há dúvida da crença na libertação do xeol pelo poder de Deus: “Onde está, ó morte, as tuas calamidades? Onde está, ó xeol, o teu flagelo?” (Os l3,l4). Deus, portanto, triunfa da morte em benefício do seu povo. Esta convicção chega a um tal nível de profundidade a ponto de Jó exclamar: “Oxalá minhas palavras fossem escritas e fossem gravadas numa inscrição; com cinzel de ferro e estilete fossem esculpidas na rocha para sempre! Eu sei que meu Defensor está vivo e que no fim se levantará do pó: depois do meu despertar, levantar-me-á junto dele, e em minha carne verei a Deus” (l9,23-26).

Para sintetizar o que vimos até aqui podemos dizer que, na tradição de Israel,  há três ideias fundamentais:

l) Xeol – a morada dos mortos. Situação carregada de desolação e tristeza.

2) Imortalidade  – nascida da filosofia grega com base  na mitologia mesopotâmica e egípcia para expressar a participação da alma dos seres humanos na vida eterna dos deuses.

3) Ressurreição – dom de Deus que faz levantar o seu Povo da desgraça e faz ressurgir os cadáveres.

 

                                                     EM DANIEL

É em Daniel e em Macabeus que se afirma convictamente a fé na Ressurreição. A vitória final do “povo dos santos do Altíssimo” é uma certeza fundamental: “E o reino e o império… serão entregues ao povo dos santos do Altíssimo. Seu império é um império eterno” (Dn 7,27).  Analisemos o texto de Dn 11,40-12,13.

Este texto é o ponto culminante do último apocalipse do livro de Daniel. Quem resiste e é fiel aos mandamentos de Deus ressuscitará.  O justo que dá sua vida na luta contra o imperialismo idolátrico não verá a morte. A Ressurreição está estreitamente ligada com a atitude de resistência. Deus estabelece o seu reino através do humano (Filho do Homem) que persevera na fidelidade a Ele, contrapondo-se à idolatria do império. No “tempo do fim” a verdade se manifestará: “Os que dormem no solo poeirento acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbrio, para o horror eterno. Os que são esclarecidos resplandecerão, como o resplendor do firmamento; e os que ensinam a muitos a justiça hão de ser como as estrelas, por toda a eternidade” (12,2-3).

A situação em que vive o povo é de sofrimento, opressão e morte. Estamos em torno do ano 175 a.C. Quem governa é  Antíoco IV Epífanes, rei selêucida, ditador sanguinário que não admite oposição à helenização da Palestina, incrementada já por seu antecessor Antíoco III.  O sistema grego com suas ideias, costumes e religião era imposto à força.  Isso significava a total perda da identidade judaica.

Numa profunda releitura da história, o livro de Daniel engendra um projeto revolucionário: julgar e condenar radicalmente o imperialismo grego (julgamento de Deus) e estabelecer uma alternativa de poder (Reino de Deus) que desse ao povo condições de liberdade e vida. Daí cresce, resplandecente, a fé na ressurreição. Ela tem, fundamentalmente, o sentido coletivo: “os filhos do teu povo e teu povo… após o tempo de muita angústia…  serão salvos” (l2,l); também “o povo santo…  após a situação de esmagamento… participará das coisas maravilhosas” (12,7); “os que dormem… acordarão” (l2,2); “os sábios (esclarecidos) resplandecerão” (12,3) e “os sábios… compreenderão”; “os justos (os que ensinam a justiça) … brilharão” (l2,3); “muitos… terão a posse da verdade” (l2,4) e “muitos… serão purificados, alvejados e acrisolados” (l2,l0) e ainda “o que aguarda…será bem aventurado” (l2,l2). Esta última expressão, além de referir-se ao povo, revela também a fé pessoal que guarda a certeza da recompensa eterna a cada um que persevera.

O texto revela ainda que a ressurreição será uma realidade que atingirá também “os ímpios que dormem… pois despertarão como os justos, porém para o opróbrio” (l2,2) e diferentemente dos sábios que compreenderão toda a verdade, “os ímpios não compreenderão” (l2,10).

É o Povo  = Daniel = Homem  (Filho do Homem)  quem  é  o  sujeito  histórico central que vai receber de Deus a recompensa da vida eterna. Miguel (l2,l) é, na tradição judaica, o principal dos anjos.  Seu nome significa “quem é como Deus?”.   Revela-se como aquele que luta em defesa deste povo pobre, sábio, justo, santo e esperançoso. Para este povo, a Ressurreição significa o dom divino da vida plena aos que perseveram na fidelidade. O julgamento final lhe será totalmente favorável. Não é por nada que Daniel significa: “Deus é meu juiz”. E, parecendo até vingança dos massacrados, o ímpio também ressuscitará, porém receberá, como consequência de sua impiedade e injustiça, o castigo sem volta.

 

                                                EM 2 MACABEUS

Esta mesma situação de opressão, retratada na linguagem apocalíptica de Daniel provocou a revolta macabaica.O sistema grego, que tinha como centro as cidades, impunha pesada política agrícola, formando latifúndios sustentados pelo trabalho escravo. A cidade engolia, pouco a pouco, a autonomia das aldeias e as altas taxas foram acabando com os pequenos proprietários… Mas o que não foi possível aguentar foi o desrespeito total de Antíoco IV Epífanes à fé do povo judeu, fiel à tradição dos Pais.  A gota d’água aconteceu quando Jasão, irmão do sumo sacerdote Onias III, comprou o cargo de sumo sacerdote e adotou a religião grega a partir do templo de Jerusalém (lMc l,l-l5). Antíoco IV chegou a entronizar, com o consentimento de Jasão, uma estátua de Zeus no templo. Essa “abominação da desolação” (1Mc 1,54) desencadeou uma reação violenta por parte de um grupo de judeus liderados por Judas, chamado Macabeu.  Foram três anos e meio (l67-l64 a.C.) de guerrilhas, perseguições e martírios.

Interessa-nos neste trabalho, o texto de 2Mc 7,1-42. Trata-se de um relato riquíssimo, profundamente afetivo, no intuito de animar a resistência e fortalecer a perseverança dos judeus neste período dificílimo. É aí que vamos sentir bem de perto, como a fé na ressurreição leva o Povo ultrajado e massacrado a não se dobrar frente ao poderoso deste mundo e aguentar até o fim.

O núcleo central deste capítulo a fé na ressurreição como garantia de vida para além da realidade presente. Em outras palavras, o povo judeu, perseverando na fidelidade à vontade de Deus, se firmou na convicção firme da ressurreição. Deus é o criador de todas as coisas, o Senhor e Rei do mundo, o agente histórico principal da Lei revelada aos Pais e da Aliança estabelecida com o povo de Israel e é o que fará ressurgir cada ser humano para uma vida eterna.

Aparecem neste texto algumas palavras gregas que merecem destaque por iluminarem, de modo especial, a concepção a respeito da ressurreição:

l. Outra vida  (metallásso): Um   verbo  composto (allásso + a preposição meta)  que   significa “mudar, alterar, trocar” e na voz média: “tomar em troca para si”. A preposição indica o que vem depois de…, além de…  A idéia de mudança sugere que a  “outra vida” será diferente desta, mas será vida concreta transformada . No texto aparecem 4 vezes este verbo em forma conjugada (7,7.l3.l4.40).

2. Vida eterna (7,9.36). A “vida” (zoé) também significa “um modo de viver”, um “gênero de vida”; também “recursos, meios de viver”.   “Vida” vem ligada a “espírito” (pneuma: 7,23) que tem o sentido de “sopro, respiração…”. O correspondente hebraico “ruah”, substantivo feminino é a que gera vida.

3.  Receber (komizo: 7,ll.29). Verbo que na voz ativa significa “alimentar, educar, levar, transportar, introduzir, levar consigo, acompanhar, tornar a trazer, voltar”; e na voz média: “receber, recolher, obter, ganhar”.  Há aqui a ideia de receber de volta o que se perdeu ou acolher novamente a pessoa que se fora embora. Unido a este sentido aparece o advérbio “de novo”, novamente  (pálin : 7,ll.l4.23) que também carrega a ideia de “algo que acontece contrariamente…”.

4. Esperar (elpizo: 7,ll.l4.20). Indica a atitude de quem sabe que vai entrar, com certeza, na posse das realidades que acredita. Atitude que decorre do temor de Deus reconhecido como o Senhor da vida e da morte. Esta certeza na esperança dá toda a coragem para suportar a aflição pois ela é momentânea. “Aflição” é uma realidade presente em todo processo de defesa dos princípios teológicos dos quais decorrem uma postura sócio-político-religiosa coerente com eles. Isso provoca incompreensões e perseguições… Também as  primeiras comunidades cristãs sentiram profundamente em sua vida  essa aflição…

5. Lei dos Pais (7,2.30.37). A “lei” (nómos)  foi o elemento fundamental na afirmação da identidade do povo de Israel. Refere-se à “lei de Moisés” (7,6): os Mandamentos do Sinai; refere-se à tradição e aos costumes adquiridos ao longo das gerações.  Para o judaísmo,  viver segundo a Lei dos Pais (antepassados, fundadores…) significa ser fiel à Aliança (7,36) e é o que garante a salvação  que, aqui em Macabeus, é o mesmo que ressurreição.

6. Ressurreição (anástasis: 7,9.14) É a palavra que indica a  “ressurreição” propriamente dita. A preposição “aná” indica a direção “para cima”, também “através de…”. O termo indica o “erguer-se verticalmente”, um salto de qualidade para o alto.

7. Misericórdia  (‘eleos: 7,23.29). Por fim, a certeza de que a ressurreição é um dom de Deus que é Misericórdia:  Ele  se  deixa  conduzir  pela compaixão (do verbo parakaléo: 7,6. Termo que evoca o sentido de “chamar junto a si, consolar…”) e retribui a cada um conforme a vida que levou,  pois Ele é o “Deus da Aliança” (7,36),  é  o  “Senhor” (7,6.20.33) e o “Rei do mundo” (7,9) em contraposição ao déspota “senhor e rei” Antíoco IV. É o “Criador do Mundo”(7,23.28); é o “nosso Deus”(7,l8) “somente Ele é Deus”(7,37). Por isso manifestará “o  seu grande poder”(7,l7).

Impressiona a figura da mulher que aí aparece sem nome e sem marido, mãe dos 7 filhos, consolando-os e encorajando-os “na língua de seus pais”. Por fim ela também entrega sua vida como seus filhos. Ela é, sem dúvida, a imagem-símbolo do povo fiel  que, para resistir frente ao sistema helenizante, recupera a memória subversiva e elabora uma contra-ideologia. A mulher-Povo, nesta situação de violência e assassinatos, gera uma nova mística de vida que produz a perseverança.

Este texto de Macabeus está muito próximo ao de Daniel. Ambos aprofundam a fé na ressurreição a partir do mesmo contexto de repressão. A fé na ressurreição se radicaliza na insurreição. E a vida que receberão os ressuscitados não será mais semelhante à vida do mundo presente: será uma vida nova, totalmente transformada e transfigurada. Esta é a esperança que sustenta os mártires no meio de provas muito duras: o Deus  que  é  criador,  também  é  aquele que ressuscita.  Porém, para os ímpios não haverá ressurreição para a Vida resplandecente e sim para o horror eterno. Poderíamos dizer que a concepção de ressurreição do judaísmo tardio está ligada com o modo de vida que cada um leva.  Assim como vivemos, assim seremos ressuscitados: ou para a vida ou para o horror eterno.

Celso Loraschi
loraschi@facasc.edu.br

Eva, a parceira de Adão (Gn 2,18-25)

Luís I. J. Stadelmann, SJ

O parentesco humano é expresso pela referência “aos ossos e à carne” que são semelhantes a determinadas espécies de seres vivos. Daí que Adão identifica Eva como mulher que é um ser humano, cuja natureza é análoga a do homem:

Desta vez sim, é osso dos meus ossos

e carne da minha carne!

Ela se chamará ‘humana’

porque do homem foi tirada (Gn 2,23).

À guisa de transição do texto sobre a criação do mundo animal (Gn 2, 19-20), o autor bíblico ressaltou a intenção do Criador em buscar uma auxiliar a fim de Adão não ficar solitário na terra (Gn 2,18). Era preciso, porém, que essa auxiliar fosse parecida quanto à espécie humana e pudesse corresponder aos desejos do homem e soubesse dialogar com ele ao seu nível como ser inteligente.

Eis que o Criador apresentou um ser humano, diferente em tudo à flora e fauna, para servir de auxiliar de Adão. Era preciso também que fosse uma criatura terrestre, sem pertencer à categoria dos anjos, porque assim não seria visível nem faria parte do mundo sensível. Tampouco poderia ela se originar de alguma partícula cósmica porque Adão foi modelado de argila, extraída da terra, e ela devia ser semelhante a ele em tudo. É que na concepção egípcia antiga vigorava a idéia de que o corpo humano teria sido feito de matéria cósmica em vista do “sósia” (em egípcio: ba) localizado no âmbito celeste. Para começar o relato, se menciona a substância visível e palpável: “carne” porque se trata de um ser vivo; ao passo que “osso” refere-se ao esqueleto da espécie do homo erectus, que já evoluiu independentemente dos antropóides, constituindo-se o ramo dos homínidas que deu origem à espécie humana. O motivo de mencionar-se esse dado da antropogênese é o contexto da escolha de uma parceira para Adão, dentre os seres vivos recém-criados (Gn 2,19-23).

Entretanto, a questão da origem da mulher transcende a morfologia do esqueleto e da restante anatomia interna. Por isso é que o gesto de boas-vindas à Eva não se manifesta pelos cinco sentidos (vista, ouvido, olfato, gosto e tato) — pois só os bichos se cheiram — , mas se exprime pela expressão espiritual ligada à linguagem: “Ela se chamará ‘humana’ porque do homem foi tirada”. Daí que o parentesco entre “homem” e “mulher” tem sua expressão sugestiva nas palavras cognatas em hebraico: ’îsh (homem) e ’ishshâh (mulher). É significativa também a escolha desses vocábulos hebraicos que denotam uma inovação no tipo de linguagem bem diferente dos animais que se manifestam por meio de sons, gritos e berros, ao passo que Adão comunica-se com Eva por conceitos da linguagem humana. A repetição de duas palavras de origem etimológica diferente é um recurso literário chamado “paronomásia” cujo efeito sonoro combina dois vocábulos pela figura da harmonia[1].

Seria uma visão reducionista entender a frase “osso dos meus ossos” no sentido de mera referência à “costela de Adão” (Gn 2,23), em vez de pensar na ossatura da criatura humana. Pelas palavras de Adão dirigidas a Eva define-se a igualdade antropológica entre homem e mulher e a igual dignidade de pessoa humana. Ao homem compete reconhecer a dignidade da mulher, que ela traz consigo desde a sua criação, e igualmente impõe-se ao homem o dever de tratá-la como pessoa que vai evoluindo desde a infância até a idade adulta sem reduzi-la à condição de uma criatura de menor idade ou privá-la dos direitos que possui desde o nascimento, tratando-a ao invés como escrava[2].

Muito significativo é o tratamento personalizado dispensado à mulher quando Adão lhe deu um nome pessoal “Eva”, a ancestral de todos os seres humanos:

O homem chamou à sua mulher “Eva”,

porque ela se tornou a mãe de todos os viventes” (Gn 3,20).

Logo de início Adão considera na criatura recém-chegada o status de uma mulher com propriedades de um ser inteligente. Por isso é que ela faz jus a uma identidade própria, distinguindo-se no mundo dos seres vivos que partilham características comuns ao meio ambiente, mas sem fazer parte dos seres dotados de inteligência e vontade, que somente pessoas privilegiadas da criação possuem. Reconhecendo nela a dignidade de pessoa humana, Adão dá-lhe um tratamento todo especial atribuindo-lhe um nome personalizado “Eva”. Com isso deu-se um passo decisivo na evolução humana pelo fato de reconhecer-se em público uma pessoa que é tirada do anonimato e recebeu o status social como “mãe” de família. Destarte, ela tem o reconhecimento do marido que se preza por ter uma esposa que se torna “mãe” dos filhos e cuja função maternal é valorizada porque dela depende o espírito do lar.

Devido à designação da mulher como “Eva” e o reconhecimento em público como dona de casa, os filhos nascidos na família de Adão são considerados “legítimos” e têm direito à herança quando os pais legarem seus bens aos filhos. Por isso, os laços de parentesco têm sua origem na casa paterna porque depende do pai reconhecer o direito de filiação e a maternidade da esposa como mãe e educadora dos seus filhos. A Bíblia trata da importância da educação dos filhos enfatizando não propriamente o ensino de verdades reveladas, mas a assimilação da vivência familiar que se torna um itinerário de fé desde a infância até à juventude. É dentro da respectiva faixa etária dos filhos e em etapas sucessivas que a mãe de família vai transmitindo valores culturais, éticos, sociais, espirituais e religiosos, essenciais para o desenvolvimento e bem-estar de seus próprios filhos e de sua integração na sociedade.

O papel de Eva como mãe de família é mencionado no contexto da maternidade dos dois filhos: Caim e Abel (Gn 4,1-2). O desenrolar da evolução dos seus descendentes não depende somente da mãe e do pai, mas também de outros fatores extrínsecos da educação do lar. É que o processo de aprendizagem é tanto mais eficaz quanto mais apropriado for o método de acompanhamento personalizado dos educandos para abrir-se ao diálogo, para o encontro etc., e quanto mais adequadas forem as orientações para enfrentar ou neutralizar as influências dos grupos de contestação e de anarquia rondando pelas ruas. Com o correr dos anos, os adolescentes e adultos acalentam gratas recordações de sua vida em família, durante a infância, como ponto de referência, mesmo quando deixaram de seguir os costumes religiosos que estavam sendo praticados em casa. Quanto a Caim que se lembrou do ensino religioso sobre a voz da consciência que exorta e aprova as ações de cada um (Gn 4,1-7), coube-lhe o destino de trilhar um itinerário de conversão e reconciliação com Deus após o crime contra Abel, seu irmão, cuja vida ele apagou sob o impulso das paixões que não soube refrear a tempo.

Eva entrou na “História da Salvação” por ser mãe da família de Adão, na qual aconteceu o “pecado original” e recomeçou a convivência humana em virtude do dom do perdão divino. A seguir, tratava-se da existência humana que não estava sob o signo da perdição, mas da salvação, quando Caim deixou rastros do crime de fratricídio na história humana, mas redimiu-se pela conversão do pecado contra Deus e a humanidade, graças à reconciliação como novo começo na convivência à luz da ética e da responsabilidade pela vida humana.

Sexualidade humana

No contexto do convívio de Adão com Eva é abordada na Bíblia a natureza sexual do homem e da mulher. É de notar que a “Tradição javista” associa a sexualidade com o problema humano da “solidão”:

Não é bom que o homem esteja só; Eu vou dar-lhe uma auxiliar que lhe seja semelhante” (Gn 2,18).

Assim é que o Criador pondera o estado de desamparo do homem solitário que só pode ser superado pela companhia e pela relação humana:

Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher,

e eles serão uma só carne (Gn 2,24).

Com a conjunção conclusiva: “por isso” é introduzida a frase explicativa, que não é de cunho redacional no texto bíblico, a título de mera transição entre um parágrafo e outro, mas é um conectivo coordenativo que tem por finalidade comunicar um dado da revelação divina. É que a convivência familiar não basta aos jovens adultos para superar a solidão que lhes invade a alma quando surge o desejo de complementação dos instintos e das tendências inerentes à natureza humana de seguir os atrativos pessoais. Embora se perceba uma característica fundamental do instinto de conservação da espécie, a finalidade da sexualidade humana é descrita pelo autor bíblico em termos de reciprocidade, que consiste na pertença de um ao outro. Com o verbo “unir-se” (em hebr. dabaq) se expressa uma união mais profunda do que a aproximação física, porque é também uma união espiritual. Destarte, a frase: “eles serão uma só carne” (Gn 2,24), correlaciona a sexualidade com o desígnio de Deus a respeito dos seres humanos, visto que cada um deles sai da solidão para a relação com o semelhante. Ora, o encontro genital (eles serão uma só carne) implica o entrelaçamento de subjetividades, de existências humanas, que não avilta a dignidade dos esposos porque se situa no contexto com os outros aspectos da vida humana. Com efeito, a relação conjugal supera de longe uma junção fortuita incitada pelo prurido do instinto sexual, visto que nutre o amor de doação entre os dois. O objetivo da vivência desse amor é a capacidade para a pessoa de transcender-se a si mesma, fazendo com que sua existência, imbuída de amor, é partilhada com os de sua família e se estende para Deus, através de sua ação participativa na missão da comunidade de fé. A meta da vida partilhada em comum é o amor de doação[3].

O ser humano tem necessidade de ser despertado pelo amor, desde o berço até a vida adulta, para se tornar amável. Há portanto antecedentes bem explícitos no processo formativo transmitido de pais a filhos que levam as pessoas a assimilar a experiência do amor. Tanto os pais como os filhos aprenderam por si mesmos a verdade nessa afirmativa de que não se pode obrigar alguém a amá-lo, mas o que se pode fazer é ser alguém que é digno de ser amado, e de resto cabe à pessoa reconhecer seu valor. A importância do “amor” como dom de Deus e virtude humana necessariamente precisa de uma mediação que seja capaz de concretizar esse “amor”. No AT é o homem que exerce o papel de mediação do amor de Deus, já que foi criado “à sua imagem e semelhança” (Gn 1,26). No NT é a esposa através de sua “docilidade para com Cristo e dos sinais disso ao seu marido” (Ef 5,21; Cl 3,18)[4].

A segunda idéia que amplia a temática com uma nova perspectiva pode ser mencionada no contexto dos relatos da criação do livro do Gênesis que transmite a reflexão de outra corrente teológica, conhecida como “Tradição sacerdotal”. Essa reflexão de teológica bíblica relaciona a sexualidade humana com a procriação. Trata-se da propagação da espécie através da participação no poder criador de Deus com a paternidade e maternidade dos esposos como conseqüência direta da bênção de Deus:

“Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos e multiplicai-vos,

enchei a terra e submetei-a!” (Gn 1,28).

Em virtude da fecundidade das forças da natureza e dos seres criados é que se beneficia a vida sobre a terra fazendo recuar cada vez mais a influência do caos agredindo o cosmo. Graças à bênção divina não se deixa chance alguma ao destino cego (em grego: moira) para imiscuir-se nos planos da providência divina sobre o mundo. Da mesma forma é que Deus chama homens e mulheres a partilharem da responsabilidade sobre a multiplicação dos seres humanos, do seu sustento e habitat. Foi-lhes entregue também a tarefa de submeter a terra aos desígnios de Deus a respeito da humanidade, para não acontecer que crenças negativistas, superstições e mitos nefastos venham impor suas ideologias superando inclusive o efeito das bênçãos divinas. Ao conscientizar os seres humanos que “submetam” (em hebr.: kibshu) a terra impõe-se cada vez mais à consideração de todos um conhecimento esclarecido do que seja a autocomunicação de Deus através da Bíblia, sob pena de não saber distinguir entre a própria fé autêntica e as crenças de outros sistemas religiosos que vão surgindo por toda a parte.

No final do relato sobre “Eva, a parceira de Adão”, encontra-se o texto sobre a nudez de Adão e Eva:

O homem e sua mulher estavam nus, mas não se envergonhavam” (Gn 2,25).

À luz dessa constatação retrospectiva sobre os primórdios da civilização o autor bíblico dá a entender que somente a atividade de tecelagem deu origem à fabricação de roupa para agasalho. Não se supõe portanto que os antecessores da raça humana estivessem cobertos de pelos para protegê-los contra a inclemência do clima do inverno e verão. Quem está coberto de pelos não está nu nem tampouco os paquidermes sem pelos estão nus porque o couro da epiderme serve-lhes de proteção.

Mas a nudez é mencionada aqui por ser a exibição dos órgãos sexuais. Na Antigüidade era um tabu vergonhoso e detestável a muitos grupos semíticos antigos, salvo circunstâncias estritamente definidas, sendo um sinal de humilhação e degradação (Gn 9,21-23; 2Sm 6,20; 10,4). Os prisioneiros de guerra tinham que passar por essa humilhação antes de enfileirar-se em praça pública para serrem vendidos como escravos.

Finalmente, é de notar que esse texto não tenta fornecer aconselhamento moral ao casal quanto à conduta sexual de caráter privado em casa, quando não houver filhos precisando de orientações sobre tabus e motivações para o comportamento moral do tipo pessoal e em público. Bem diferente seria o caso, se ocorresse na família e na presença dos filhos Caim e Abel que precisavam da educação no lar e tinham necessidade do exemplo dos pais para saber como se comportar em público. Nesse caso se abre a Bíblia para consultar os textos sobre as exigências morais da Aliança sagrada. No NT encontramos a instituição da Igreja como instrumento de mediação dos dons salvíficos para a humanidade, sendo os fiéis portadores desses dons e agentes de irradiação. Sua missão na vida é acolher os dons salvíficos e fazer com que por meio de seus frutos possa estender-se a eficácia da graça salvífica às pessoas de sua vizinhança e do ambiente de trabalho.

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[1] Dois vocábulos diferentes em hebraico segundo a etimologia: ’îsh (homem) e ’ishshâh (mulher), palavra essa que é derivada da raiz hebr. ’ansh; o significado original é “feminino”, correspondendo à raiz vocabular do árabe (cf. P. Joüon – T. Muraoka, A Grammar of Biblical Hebrew, vol. I, Part 1: Orthography and Phonetics, Part  2: Morphology; vol. II, Part 3: Syntax [Subsidia Biblica: 14/I-II], P.I.B., Rome 1991, § 99c).

[2] Se a esposa for tratada como pessoa de menor idade, haverá uma reação de protestos em família, ou a mulher assumirá uma atitude anti-social de arrogância e petulância para reagir contra a degradação de sua dignidade de pessoa. A conseqüência é porém muito trágica porque o marido substitui a esposa por outra mulher e joga a anterior no olho da rua.

[3] Para os líderes comunitários que querem oficializar o Casamento entre Homossexuais (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros) compete explicar-lhes como é que eles podem realizar a vocação da autotranscender-se. Lembremos, porém, que a existência dos mesmos, imbuída de amor, tem que ser partilhada com os de sua família e precisa estender-se para Deus, através de sua ação participativa na missão da comunidade de fé.

[4] O verbo grego hypotassetai significa na voz passiva “ser dócil”, que tem conotação religiosa e não sociológica em S. Paulo; quanto ao objeto do verbo ocorre aqui um deslocamento para o fim da frase por motivo de ênfase: “Cristo / Senhor”.