A INVOCAÇÃO DE DEUS NA LITURGIA

“DEUS TODO-PODEROSO”? ou, antes,  simplesmente, “PAI”?

Pe. Ney Brasil Pereira*

De uns tempos para cá, está sendo cada vez mais difícil para mim, na celebração eucarística, rezar o texto das orações no teor oficial que elas apresentam, no que concerne ao modo como Deus é invocado. Isso, especialmente nas três orações próprias de cada celebração: a “do dia”, e a que conclui o rito da preparação das ofertas,  e a pós-comunhão. Por exemplo, na oração “do dia” do 5º domingo do tempo comum[1] : “Velai, ó Deus, sobre a vossa família…”; na da preparação das ofertas: “Senhor nosso Deus, que criastes…”; e na pós-comunhão: Ó Deus, vós quisestes…”

Afinal, qual é o nome próprio de Deus? No Antigo Testamento, segundo a revelação feita a Moisés, em Ex 3,14, esse nome é o tetragrama YHWH, logo tornado impronunciável e substituído, em hebraico, por ’ADONAY, e na Septuaginta, por KYRIOS, “o Senhor”. No Novo Testamento, porém, o “nome próprio” de Deus, nos lábios do Senhor Jesus, é sempre “PAI”. E isso, quer nas inúmeras vezes em que nos Sinóticos e em João, ele se refere a Deus, sempre chamando-o de “PAI”, quer nas invocações, como na oração do Horto, nos três Sinóticos[2], ou, em João, na oração ante o túmulo de Lázaro: “Pai, eu te dou graças…” (Jo 11,41), e no diálogo íntimo equivalente à oração do Horto: “Minha alma está perturbada. E que direi? Pai, livra-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu nome!” (Jo 12,27-28). Ainda em João, na oração “sacerdotal”, no cap. 17, várias vezes: “Pai, chegou a hora. Glorifica teu Filho…” (v.1); “E agora, Pai, glorifica-me…” (v. 5); “Pai Santo, guarda-os em teu nome…” (v.11); “Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim…” (v. 21); “Pai, quero que estejam comigo…” (v.24); “Pai justo, o mundo não te conheceu…” (v. 25).

Além disso, todos sabemos que, quando ensinou-nos a orar, o Senhor Jesus assim nos instruiu:  segundo Mateus, “Vós, portanto, orai assim: Pai nosso que estais nos céus…” (Mt 6,9); e segundo Lucas, “Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja teu nome” (Lc 11,2). Não esqueçamos também que, segundo Paulo, aos gálatas, é o próprio Espírito Santo que, em nossos corações, clama por nós: Abbá, Pai! (Gl 4,6). De modo semelhante, o mesmo Apóstolo, aos romanos, nos assegura que recebemos “o Espírito que, por adoção, nos torna filhos, e no qual clamamos: Abbá, Pai! (Rm 8,15).

Se é assim, fica a pergunta: Por que será, que em nossa liturgia, nos textos eucológicos, se desconhece a grande novidade, o grande “evangelho” que o Senhor Jesus nos trouxe em relação a Deus, que é antes de tudo PAI, e que assim quer ser invocado por todos os seus “filhos e filhas”, por isso mesmo “irmãos e irmãs” entre nós?[3]

Deus como “Pai” no Antigo Testamento

Já no Antigo Testamento, a começar do profeta Oséias, temos vários prenúncios desse “evangelho” da paternidade de Deus. Assim, enquanto Amós anunciava a justiça punitiva de YHWH, justo juiz, decidido a punir e “dar fim” a seu povo infiel (cf Am 8,1-2 e 9,1-4), simultaneamente ou pouco depois, Oséias, no reino do Norte, embora denunciando essa mesma infidelidade, apresentou a face misericordiosa de YHWH, esposo fiel (Os 2,4-25) e verdadeiro pai do seu povo (Os 11,1-4.8-9)[4]. Vale a pena citar, pelo menos parcialmente, essa última passagem: “Israel era ainda criança, e eu já o amava: do Egito chamei meu filho. Quanto mais, porém, os chamava, mais eles se afastavam de mim… Fui eu, contudo, quem ensinei Efraim a andar, eu o tomei pelos braços… eu era para eles como quem pega uma criança ao colo e a traz junto ao rosto…

Ecos desse Deus paterno de Oséias encontramos em Jeremias: “Vós me chamareis ‘meu Pai’, e não vos afastareis de mim… (Jr 3,19) Eu sou um Pai para Israel, e Efraim é meu primogênito… (Jr 31,9) Será Efraim para mim um filho tão querido, que, cada vez que  nele falo, quero ainda lembrar-me dele? Por ele se comovem minhas entranhas, por ele transborda minha ternura, oráculo de YHWH (Jr 31,20). Ecos, ainda, de Oséias, no Deuteronômio: “No deserto viste que YHWH teu Deus te levou, como um homem – um pai – leva seu filho… (1,31); em Dt 32,6b: “Não é ele teu Pai, teu Criador? Ele próprio te fez e te firmou! Também no Êxodo, na passagem em que aparece o embate entre dois “pais”, na mensagem que Moisés deve levar ao Faraó: “Assim falou YHWH:  meu filho primogênito é Israel. E eu te disse: Faze partir o meu filho, para que me preste culto! Mas, porque recusas deixá-lo partir, eu farei perecer o teu filho primogênito” (Ex 4,22-23). Ecos, novamente, de Oséias, no Terceiro Isaías: “Com efeito, tu és o nosso Pai… Tu, YHWH, és nosso Pai e nosso Redentor: tal é o teu nome desde a eternidade” (Is 63,16). “No entanto, YHWH, tu és o nosso Pai; nós somos a argila e tu és o nosso Oleiro…” (Is 64,7) No Sl 89,26, messiânico, o próprio Deus, retomando a profecia de Natã (2Sm 7,14), anuncia que o descendente de Davi o chamará de “Pai”: “Ele me invocará: Tu és meu Pai e meu Rochedo salvador…

No livro do Eclesiástico/Sirácida, impressiona a apóstrofe a Deus como Pai, por duas vezes, no início do capítulo 23: “Senhor, Pai e Soberano da minha vida…” (v. 1) e “Senhor, Pai e Deus da minha vida…” (v.4). Ambos os versículos, especialmente o primeiro, parecem o começo e o fim da oração do Senhor Jesus: “Pai nosso… não nos deixes cair…” (Mt 6,9.13). Isto é, Ben Sirá antecipou-se a Nosso Senhor nesse modelo filial de invocar a Deus, sendo o primeiro do qual saibamos que fez a transição do conceito de paternidade coletiva (como encontramos em Os 11,1 e Is 1,2 e 63,16, em que YHWH é apresentado ou invocado como Pai do seu povo) para a paternidade individual: Deus é o “meu” Pai, Pai e Soberano “da minha vida”. Notar ainda que, no livro da Sabedoria, posterior ao Sirácida, os “ímpios” criticam o “justo” porque tem a pretensão, segundo eles, de invocar a Deus como Pai, numa notável antecipação da acusação que os adversários de Jesus lhe fazem, especialmente no quarto evangelho: “…ele dizia ser Deus seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (Jo 5,18)[5]. Ainda no Sirácida, no salmo de agradecimento quase no final do livro, novamente a invocação de Deus como Pai: “E proclamei: Tu és meu Pai, meu poderoso Salvador…” (Eclo 51,10[6])

Conclusão

O tema merece, creio, estudo e debate. Excelente material para uma boa pesquisa no Novo Testamento e, também, nos textos eucológicos da nossa liturgia. Fica a pergunta, que em mim não quer calar: Por que, na liturgia, não invocamos nosso Deus como o Senhor Jesus o fez, chamando-o simplesmente de “Pai”? Se a “lex orandi, lex credendi” e, por isso mesmo, “lex agendi[7], quais as conseqüências, inevitáveis, dessa maneira não jesuânica de invocar a Deus?

 

 

*O autor, Mestre em Ciências Bíblicas (Roma, 1973), e membro da Pontifícia comissão Bíblica, é professor no ITESC, Florianópolis, SC

* email do autor: ney.brasil@itesc.org.br

 


[1]O exemplo do “5º domingo do tempo comum” nada tem de excecional. Antes, é a regra geral. Cito-o apenas porque foi nessa semana que rascunhei este artigo.

[2] Marcos faz questão de registrar o próprio termo aramaico empregado por Jesus: “Abbá, Pai, tudo é possível para ti(Mc 14,32)

[3] Interessante é o fato de que essa pergunta não é feita explicitamente, pelo que pude ver, na grande obra de JUNGMANN, J.A., “Missarum Sollemnia”, afinal traduzida em português e lançada pela Paulus, SP, no ano passado. A edição brasileira é tradução da última edição do autor, em alemão, publicada em 1962, pouco antes do Concílio. Na p. 374, a nota 25 começa assim: “Nas orações romanas jamais ocorre o título explícito do  Pai…” e cita um artigo de Karl RAHNER, numa revista alemã, em 1942, sobre “ ‘Deus’ como Pessoa trinitária no Novo Testamento”.

[4] Cf  PEREIRA, Ney Brasil, “Os Profetas, nossos contemporâneos”, apostila , ITESC, Florianópolis, 1997, cap. VII, “Oséias: a revelação de Deus como Esposo e Pai”, pp. 28-30

[5] Cf  PEREIRA, Ney Brasil, “Sirácida ou Eclesiástico”, da col. “Comentário Bíblico do AntigoTestamento”, Petrópolis, 1992, coed. Vozes/Sinodal/Metodista, pp. 114-115.

[6] Nas citações do Eclesiástico, devido à complexidade da tradição manuscrita, é sempre necessário conferir o versículo: na Bíblia da CNBB, seguindo a Nova Vulgata,  51,10 é 51,14.

[7] Traduzindo: “O modo (a norma) como se reza torna-se o modo como se crê” e, consequentemente, “o modo como se age”…

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