Caminhos da leitura popular da Bíblia

Desvelando, conhecendo e restaurando a imagem de Maria Madalena

Estudo de Jo 20,1.11-18

Silvia  Togneri

Introdução

Maria Madalena é uma das personagens bíblicas que atualmente têm recebido muita atenção por parte de escritores. A curiosidade de muitas pessoas a respeito dela aumentou consideravelmente a partir do livro – O Código Da Vinci, de Dan Brown. Anteriormente alguns pesquisadores como Anne Pasquier, Elisabeth Moltmann-Wendel, Esther de Boer, Fernanda de Camargo Moro, Jean-Yves Leloup, Jaci de Freitas Faria,  Lilia Sebastiani, Lynn Picknet, e Karen King entre outros, efetuaram pesquisas e publicaram seus estudos sobre esta personagem.

Segundo os textos bíblicos ela foi a primeira testemunha da ressurreição de Jesus e conviveu muito de perto com ele. Seu nome aparece 12 vezes no Novo Testamento, e ela é citada em momentos fundamentais da vida de Jesus, tais como: no seguimento e serviço a Jesus desde a Galiléia (Mc 15,41 e Lc 8,2); observando a crucifixão e a morte de Jesus (Mc 15,40; Mt 27,56; Lc 23,49 e Jo 19,25); observando o local do sepultamento de Jesus (Mc 15,47 e Mt 27,61); indo ao túmulo de Jesus no primeiro dia da semana (Mc 16,1; Mt 28,1; Lc 24,10 e Jo 20,1); recebendo o anúncio da ressurreição de Jesus (Mc 16,6; Mt 28,5-6; Lc 24,10) e vendo Jesus ressuscitado em primeiro lugar e recebendo dele uma missão (Mc 16,9; Mt 28,9-10 e Jo 20,17-18). Entre as mulheres que acompanharam Jesus desde a Galiléia, ela é quem recebe um maior destaque na narrativa da Ressurreição.

Muitas perguntas surgiram a respeito de quem realmente foi Maria Madalena, ao se comparar o que está na Bíblia com os escritos de ficção, estudos históricos, exegéticos e o que foi construído na tradição popular, em vista da conotação negativa que ela recebeu a partir do séc. V da E.C., em homilias que a apresentaram como uma grande pecadora e até como uma prostituta, que se converteu ao conhecer Jesus. Ela foi apresentada como o grande modelo de conversão. O testemunho da Ressurreição e a missão dada a ela por Jesus, conforme Jo 20,11-18, ficou em segundo plano.

Também ela foi confundida com outras personagens bíblicas tais como: a mulher considerada adúltera que ia ser apedrejada e salva por Jesus segundo Jo 8,1-11; com Maria, irmã de Marta e com a mulher dita ser uma pecadora, que ungiu os pés de Jesus segundo Lc 7,36-50. Com a finalidade de procurar esclarecer e realçar a importância dela na Ressurreição e da missão que ela recebeu de Jesus, apresentamos um resumo do estudo de Jo 20,1.11-18, feito com a Metodologia da Leitura Popular da Bíblia, com grupos de estudo bíblico. O versículo 1 introduz o tema a ser abordado nos versículos 11-18 e por isso, não poderia ser desconsiderado. Iremos nos referir a esta personagem como Maria de Mágdala, o nome de sua provável cidade de origem.

Uma aproximação ao Texto

As perguntas que introduziram o estudo foram: Por que motivo as pessoas buscam ir a cemitérios ou ao local onde seus entes queridos estão sepultados? O que conhecemos a respeito da personagem Maria de Mágdala – Madalena? Qual a sua característica que foi mais ressaltada? Com quais sentimentos nos aproximamos desta personagem?

As respostas foram as mais variadas, entre elas que: algumas pessoas vão ao local da sepultura de seus entes queridos para homenagear, para rezar, para reverenciar a memória deles, por saudade, zelo e carinho; outros criticaram a atitude de exploração que acontece nos cemitérios e até mesmo no momento do funeral. Foi citado também que, algumas vezes, as pessoas por culpa de não terem feito o que deveriam por quem faleceu, vão procurar se redimir indo ao local onde aquele está sepultado. No geral, ficou a impressão da necessidade de um encontro com algo que lembre a pessoa que morreu. A respeito de Maria de Mágdala – Madalena – a opinião unânime foi de que ela era uma pecadora que se converteu ao conhecer Jesus. Alguns afirmaram que ela era a mulher adúltera que ia ser apedrejada, que está em Jo 8,1-11, inclusive por estudos de catequese que haviam recebido, outros a confundiram com Maria, irmã de Marta e com a mulher dita ser uma pecadora, que ungiu os pés de Jesus como em Lc 7,36-50. O sentimento em relação à Maria de Mágdala foi o de uma pessoa que é modelo de conversão e fé.

Lendo e Aprofundando o Texto – Desvelando e Conhecendo Maria de Mágdala

Feitas estas aproximações introdutórias, passamos a ler o texto de Jo 20,1.11-18, explicando-se o porquê desta delimitação e comparando com as narrativas de Mc 16,1-11; Mt 28,1-10 e Lc 24,1-12. Para maior entendimento foi feita também uma leitura de todo o capítulo 20. As perguntas que surgiram foram em relação: a por que Maria de Mágdala está sozinha no texto de Jo 20,1, sendo que no v. 2 encontra-se em sua fala o plural: não sabemos; qual o propósito de sua ida ao sepulcro; por que ela chora muito e não se deixa consolar pelos anjos e nem os reconhece como enviados de Deus; por que ela não reconhece imediatamente Jesus ressuscitado quando este lhe aparece; por que parece que ela não acreditava na ressurreição de Jesus se está chorando e inconsolável; e por que ela não pode tocar Jesus se Tomé o pôde como está em Jo 20,27 . Ao mesmo tempo uma característica dela é ressaltada ao ler mais uma vez o texto, ela quer encontrar o corpo de Jesus e se acha capacitada, com forças para carregá-lo, buscá-lo.

A partir da leitura atenta de cada versículo, evidenciando as atitudes e ações, os personagens, quando e onde se encontravam, os verbos e as palavras que mais se destacam no texto, aos poucos, os participantes foram desvelando e compreendendo a intenção da comunidade joanina em apresentar este relato único, mostrando a importância e a atitude corajosa de Maria de Mágdala, em ser apresentada indo só ao local do sepulcro de Jesus e em manter o firme propósito de buscar o corpo dele. Concordam que para ela, Jesus foi muito importante, embora ela ainda não consiga lembrar das palavras dele a respeito da Ressurreição, como em Jo 16,5.28 (“Mas agora eu vou para aquele que me enviou.” e “Eu saí de junto do Pai e vim ao mundo: agora deixo o mundo e volto para o Pai”).

A respeito do motivo de sua ida ao sepulcro de madrugada (v. 1), ela não foi  levar aromas para homenagear o corpo de Jesus, pois, Nicodemos já o havia feito, conforme está em Jo 19,39-40 e, sim foi fazer o que hoje muitas pessoas fazem, procurar estar próxima do local onde estava o corpo de Jesus e chorar sua falta. Ela estava abalada com tudo o que aconteceu a Jesus e foi por amizade, saudade, carinho, zelo e amor a Ele. E, ao chegar e ver a pedra do sepulcro removida supõe que o corpo de Jesus não estava mais ali dentro. Ao não encontrar o corpo resta-lhe chorar mais ainda a falta do Mestre. A respeito de ter sido deixada só e chorando do lado de fora do sepulcro, como está no versículo 10, pode-se apontar para uma exclusão desta líder de comunidade cristã ou da própria comunidade em relação às outras comunidades cristãs.

No v. 11, é que ela se abaixa como que procurando olhar o que realmente está dentro do túmulo e vê, mas não reconhece dois anjos que ali estavam. Porque ela está inconsolável e pensando apenas na morte, no corpo desaparecido de Jesus, não é capaz de reconhecer os anjos dentro do sepulcro, como enviados de Deus, ao conversar com eles nos v.12-13. Um destaque foi evidenciado: quando em situações de desespero, muitas vezes não somos capazes de ver que Deus está se preocupando conosco, que Ele quer nos dizer algo, quer nos consolar. Se vemos, não conseguimos entender a ação de Deus. As pessoas que se fecham em seu sofrimento, na sua dor muitas vezes não conseguem sair dela, pois só olham para si mesmas. Podemos então, fazer uma comparação com os verbos olhar, ver, reconhecer e compreender. Quando olhamos sem maior preocupação podemos apenas ver o aparente, o exterior, mas os verbos ver, reconhecer e compreender indicam a plenitude do que está acontecendo. Apontam para uma identificação plena da ação.

Em relação ao não-reconhecimento imediato de Jesus ressuscitado (v. 14-15), quando este lhe aparece e ela o confunde com o jardineiro, na mesma linha de pensamento do não reconhecer a ação de Deus, o grupo caminhou. Jesus é o mesmo, mas, agora glorificado pelo Pai. Glória esta que, enquanto ele era visto apenas como ser humano, não era percebida. Ele é o filho de Deus que venceu a morte. E, por isso, era preciso olhar para Jesus com outra forma de entendimento e compreensão, era preciso ir além do cotidiano, do dia-a-dia, do físico e chegar ao transcendente. Era preciso lembrar das palavras de Jesus com em Jo 16,16 “Ainda um pouco de tempo e já não me vereis e outro pouco de tempo e me tornareis a ver”. E, Maria de Mágdala enquanto preocupada com a morte de Jesus e seu corpo, não consegue ir além da situação. Não consegue ver a ação libertadora de Deus.

Então no v.16 quando ouve seu nome ser chamado por Jesus é que ela se dá conta que é Ele quem lhe fala. E identifica-o, reconhece-o como o Mestre querido, Ele é o Rabbuni. Ele ressuscitou. Está vivo. Surge então uma pergunta: quando Deus chama por nosso nome somos capazes de ouvi-lo, ou estamos tão atarefadas/os com as coisas do dia-a-dia, que não ouvimos seu chamado? Ou não conseguimos identificar que é Deus quem nos chama?

O grupo ressaltou que a resposta imediata de Maria de Mágdala: Rabbuni, ao chamado de Jesus, é evidenciada no texto e nos provoca a ter a mesma atitude dela em saber ouvir, procurar entender a ação de Deus e responder com firmeza e clareza. Só Jesus é o Mestre que nos leva ao Pai. E, por este motivo, não podemos ficar agarrados às coisas físicas e imediatas, é imprescindível comunicar às pessoas a experiência de Deus que se vivenciou. Ele liberta e salva de tudo o que é morte. Só ele dá vida.

Em relação ao que Jesus lhe pede, como está no v. 17, em não o segurar, não o reter, o grupo compreendeu que o mais importante para a comunidade joanina é o anúncio da Ressurreição. Isto é o necessário para entender toda a ação de Deus. Foi ressaltado que pessoas amigas quando se encontram após a superação de uma situação difícil, se abraçam ou querem demonstrar afeto pela alegria do momento. Entendem que este encontro entre Jesus e Maria de Mágdala foi efetivado com muita alegria e celebrado, através de um grande abraço. Comparando o que aconteceu com Tomé (v.27), em que ele precisou tocar em Jesus para acreditar que era Ele mesmo que estava ali, já, Maria de Mágdala, quis segurar, tocar Jesus por alegria, carinho e amor ao seu Rabbuni.

No v.18, a missão que ela recebe de Jesus: “Vai para os meus irmãos e dize: subo para o meu pai e vosso pai e meu Deus e vosso Deus”, demonstra a importância dela no grupo que o seguia e que ela estava preparada para tal tarefa. Comparando com os relatos de Mt 28,1-10; Mc 16,1-9 e Lc 24,1-10, constata-se que Ele aparece em primeiro lugar às mulheres e entre elas em destaque sempre está Maria de Mágdala. A comunidade joanina registra que ela não vacila e no v.18 imediatamente vai avisar que Jesus está vivo. Ele ressuscitou. Deparamo-nos, especialmente, no significado de: “Vi o Senhor”. O que representa para cada pessoa cristã dizer: vi Jesus. Não é apenas um olhar aparente e sim um ver profundo. Ver, reconhecer e compreender que Deus atua sempre a favor da vida, que só Ele liberta, que caminha conosco. Ela anuncia com coragem aos irmãos e irmãs, propaga a mensagem da Boa Nova com firmeza. O que nos leva a procurar seguir a ação desta mulher, Maria de Mágdala, em anunciar e testemunhar a mensagem de libertação de Deus.

Restaurando a imagem de Maria de Mágdala

Maria de Mágdala torna-se assim o exemplo de ser cristã ou cristão no mundo. Ela procura incessantemente encontrar Jesus. Foi preciso viver a ação libertadora de Deus para reconhecê-lo. Ao encontrá-lo, ouvir o que diz, lembrar suas palavras para imediatamente o identificar como: Rabbuni, e anunciar com coragem: Jesus vive. A impressão primeira que os/as participantes tinham a respeito desta personagem mudou. Ela é a mulher que seguiu Jesus desde a Galiléia (Lc 8,1-3), que presenciou sua morte (Jo 19,25) e testemunhou a sua ressurreição e a anunciou, dando origem à notícia fundamental do cristianismo. Ela declara com firmeza: “Vi o Senhor”. Um comentário ficou: por que não se fala a respeito disso, dessa forma ao citar Maria de Mágdala, ela é sempre chamada de Madalena, e muitas vezes de Madalena arrependida. O que é mais importante: um pecado que alguém tenha feito ou como discípula ter sido escolhida por Jesus para ser a primeira testemunha e anunciante da Ressurreição dele. Se Jesus a escolheu e lhe deu uma missão é porque ela teria condições de realizá-la. Estava preparada para tal. Surge a pergunta: Por que após a Ressurreição não se fala mais nada a respeito dela? Agora entendemos o quanto ela foi importante dentro do grupo que seguiu Jesus e nos primeiros tempos do cristianismo. Ela deve ser modelo de seguimento fiel a Jesus.

Durante o estudo bíblico os passos que os/as participantes dos grupos fizeram de acordo com a Metodologia da Leitura Popular da Bíblia, resultaram num crescimento espiritual e no entendimento da importância de Maria de Mágdala, no seguimento de Jesus. Os resultados acabaram surpreendendo e confirmando o louvor que Jesus deu ao Pai quando disse que a revelação é dada aos pequeninos (Mt 11,25).

E por isso nos propomos a dizer

Creio que o primeiro dia da semana é o Dia da Divindade.

Creio nas madrugadas da vida, nos túmulos vazios,

Na espera de encontros que geram vida.

Creio em quem não se acomoda e sai em busca.

Creio que é possível remover as pedras que impedem as relações.

Creio nas mulheres que choram junto ao túmulo.

Creio que Maria Madalena ficou do lado de fora porque estava sendo incompreendida.

Creio nas pessoas que se inclinam para olharem dentro do túmulo na busca da vida.

Creio que os que permanecem dentro dos túmulos não ressuscitam.

Creio nos que permanecem na luta em busca da defesa e promoção da vida.

Creio nos que têm coragem de dar as costas para a morte e virar-se para a vida.

Creio que Maria Madalena tinha a certeza de que Jesus estava vivo e presente.

Creio nas mulheres e homens que têm coragem de questionar.

Creio que Deus nos chama pelo nome, nos envia em missão e creio nos que ouvem o seu chamado.

Creio nas mulheres e homens que têm coragem de tocar e se deixar abraçar.

Creio nas mulheres e homens que anunciam o Deus que é Pai e Mãe,

Que nos enviou seu Filho, que entre nós se encarnou para que todos tenham Vida Nova.

Acreditamos que sob a inspiração do Espírito Santo, os/as participantes puderam fazer as descobertas e esclarecer o que os confundia sobre Maria de Mágdala, e com certeza terão como modelo esta personagem que não se acomodou, não se atemorizou e buscou procurar entender o que estava acontecendo, num momento de muita dor e desesperança como foi a morte de Jesus. Ela foi a discípula fiel e apóstola de Jesus. Foi a portadora do anúncio fundante do cristianismo: Vi o Senhor. Ele está vivo. Ressuscitou.

 

 

Silvia Togneri.

Rua S. Judas Tadeu, 89.

88045-010 Florianópolis, SC

silviatogneri@hotmail.com

 

 

Bibliografia

BOER, Esther. Maria Madalena. Discípula, Apóstola e Mulher. São Paulo: Masdras,1999.

KING, Karen L. Canonização e Marginalização: Maria de Mágdala. In: Concilium/276-1998/3, Petrópolis:Vozes,1998.

KONINGS, Johan. Evangelho segundo João. Amor e Fidelidade. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 2000.

SCHOTTROFF, Luise. Mulheres no Novo Testamento: exege numa perspectiva feminista. São Paulo: Paulinas, 1995.

SEBASTIANI, Lilia. Maria Madalena. De personagem do evangelho a mito de pecadora redimida. Petrópolis: Vozes, 1995.

TAMEZ, Elsa. As Mulheres no Movimento de Jesus, o Cristo. São Leopoldo: Clai/Sinodal, 2004.

MESTERS, Carlos; LOPES, Mercedes; OROFINO, Francisco. Raio-X da Vida.  Círculos Bíblicos do Evangelho de João. In: A Palavra na Vida No. 147/148. São Leopoldo: CEBI, 2000. p. 130-133.

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