A FÉ NA RESSURREIÇÃO NO PRIMEIRO TESTAMENTO

No Primeiro Testamento, a ideia de ressurreição está ligada à de imortalidade. Sobretudo, são os gregos que nos legaram a concepção de imortalidade (athanasia) como posse da vida imperecível. Primitivamente pensava-se que se tratava de um privilégio exclusivo dos deuses. Por isso, eles eram também chamados de “os imortais”. Foi Platão quem procurou provar que a alma humana também podia participar desta imortalidade. A morte abriria a porta para a vida imortal. Depois de Platão, outros buscaram aprofundar este pensamento e, nesta busca, nasceram os cultos mistéricos como meios que asseguravam a conquista de uma vida imortal.

O termo grego athanasia, encontrado na septuaginta, não tem correspondente na Bíblia Hebraica. Não é que os hebreus tenham pensado que a pessoa humana, pela morte, voltaria ao nada. Não se duvidava da existência no além-túmulo. Porém, esta vida após a morte se caracterizava por uma profunda tristeza que não poderia merecer o nome de imortalidade. A pessoa, após a morte, descia ao xeol onde levava uma existência desolada, em poeira e escuridão. Apesar desta ideia baseada numa antropologia primitiva, o povo de Israel vai experienciando a presença viva e sempre nova de Yahweh, cuja face vai se revelando historicamente como o Senhor da vida e da morte: “É Yahweh quem faz morrer e viver, faz descer ao xeol e dele subir” (l Sm 2,6; também Dt 32,39). Ele tem poder sobre o xeol  (Am 9,2; Sl l39,8).  Ele resgata a alma da pessoa humana da fossa (Sl l03,4) e lhe dá a vida (Sl 4l,3; 80,l9). Ele não abandona ao xeol a alma dos seus amigos e não os deixa ver a corrupção (Sl l6,l0s).

 

                                         NA LITERATURA SAPIENCIAL

A literatura sapiencial, principalmente, vai desenvolver a concepção de que a verdadeira vida está ligada com a prática da justiça: “Na senda da justiça está a vida; o caminho dos ímpios leva à morte” (Pr l2,28; também Pr l5,24; l9,23, etc.).  O livro da Sabedoria – uma espécie de teologia política dos judeus de Alexandria entre os séculos I e II antes de Cristo -  procura mostrar a identidade do povo judeu em meio à cultura helênica. Esta identidade baseia-se em quatro pilares:

l) A imortalidade (Sb l-5);

2) A sabedoria (Sb 6-9);

3) Uma visão de idolatria (Sb l0-15);

4) Uma visão de libertação (Sb l6-l9).

Partindo do único absoluto, o Deus vivo, o livro da Sabedoria aprofunda a consciência da pertença do povo de Israel a Yahweh, garantidor da vida imortal.  Este povo tem consciência de que sua formação e sua organização são frutos do  ato libertador de Deus que os tirou da escravidão do Egito. Mas não se reduziu à experiência do Êxodo: Deus continuou agindo na história, age  no momento presente  e continuará no futuro. O momento presente é marcado por uma cultura de idolatria e morte. O povo de Deus, porém,  proclama a vida.  A Sabedoria anuncia um “mundo novo”, uma “nova era” em que a harmonia do mundo será o ponto de chegada. A ideia motriz que impulsiona esta dinâmica histórica é a da imortalidade como dom de Deus àqueles que seguem a justiça, “porque a justiça é imortal” (l,l5). E “a vida dos justos está nas mãos de Deus, nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos pareceram morrer; sua partida foi tida como uma desgraça, sua viagem para longe de nós como um aniquilamento, mas eles estão em paz. Aos olhos humanos pareciam cumprir uma pena, mas sua esperança estava cheia de imortalidade” (3,l-4).

Percebemos que a visão teológica desta época fundamenta-se na doutrina da retribuição.  O livro de Jó é o portador do pensamento crítico frente a esta concepção. De qualquer maneira, pela literatura sapiencial,  reconhecemos que o Deus criador não é o autor da morte: “Pois Deus não fez a morte nem tem prazer em destruir os viventes. Tudo criou para que subsista…” (Sb l,l3-l4). São os ídolos que trazem a morte e os que os seguem caminham para a desgraça (l3,l0ss).

 

                                                POUCO A POUCO

A ideia da ressurreição foi se incorporando pouco a pouco à fé de Israel. Anteriormente ao livro da Sabedoria e da literatura sapiencial, encontramos uma série de textos que traduzem a esperança coletiva do povo de forma a expressar a fé em Deus que faz reviver: “Vinde, retornemos a Yahweh. Porque ele despedaçou, ele nos curará; ele feriu, ele nos ligará a ferida. Depois de dois dias nos fará reviver, no terceiro dia nos levantará e nós viveremos em sua presença” (Os 6,l-2). O profeta Ezequiel anuncia que, depois da provação do exílio na Babilônia, Deus ressuscitará o seu povo como os ossos que recobram a vida (Ez 37,l-l4). Deus fará reviver os mortos, fará ressurgir os seus cadáveres e despertar os que habitam no pó  (Is 26,19).

Tudo isso parece ter um sentido metafórico, mas não há dúvida da crença na libertação do xeol pelo poder de Deus: “Onde está, ó morte, as tuas calamidades? Onde está, ó xeol, o teu flagelo?” (Os l3,l4). Deus, portanto, triunfa da morte em benefício do seu povo. Esta convicção chega a um tal nível de profundidade a ponto de Jó exclamar: “Oxalá minhas palavras fossem escritas e fossem gravadas numa inscrição; com cinzel de ferro e estilete fossem esculpidas na rocha para sempre! Eu sei que meu Defensor está vivo e que no fim se levantará do pó: depois do meu despertar, levantar-me-á junto dele, e em minha carne verei a Deus” (l9,23-26).

Para sintetizar o que vimos até aqui podemos dizer que, na tradição de Israel,  há três ideias fundamentais:

l) Xeol – a morada dos mortos. Situação carregada de desolação e tristeza.

2) Imortalidade  – nascida da filosofia grega com base  na mitologia mesopotâmica e egípcia para expressar a participação da alma dos seres humanos na vida eterna dos deuses.

3) Ressurreição – dom de Deus que faz levantar o seu Povo da desgraça e faz ressurgir os cadáveres.

 

                                                     EM DANIEL

É em Daniel e em Macabeus que se afirma convictamente a fé na Ressurreição. A vitória final do “povo dos santos do Altíssimo” é uma certeza fundamental: “E o reino e o império… serão entregues ao povo dos santos do Altíssimo. Seu império é um império eterno” (Dn 7,27).  Analisemos o texto de Dn 11,40-12,13.

Este texto é o ponto culminante do último apocalipse do livro de Daniel. Quem resiste e é fiel aos mandamentos de Deus ressuscitará.  O justo que dá sua vida na luta contra o imperialismo idolátrico não verá a morte. A Ressurreição está estreitamente ligada com a atitude de resistência. Deus estabelece o seu reino através do humano (Filho do Homem) que persevera na fidelidade a Ele, contrapondo-se à idolatria do império. No “tempo do fim” a verdade se manifestará: “Os que dormem no solo poeirento acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbrio, para o horror eterno. Os que são esclarecidos resplandecerão, como o resplendor do firmamento; e os que ensinam a muitos a justiça hão de ser como as estrelas, por toda a eternidade” (12,2-3).

A situação em que vive o povo é de sofrimento, opressão e morte. Estamos em torno do ano 175 a.C. Quem governa é  Antíoco IV Epífanes, rei selêucida, ditador sanguinário que não admite oposição à helenização da Palestina, incrementada já por seu antecessor Antíoco III.  O sistema grego com suas ideias, costumes e religião era imposto à força.  Isso significava a total perda da identidade judaica.

Numa profunda releitura da história, o livro de Daniel engendra um projeto revolucionário: julgar e condenar radicalmente o imperialismo grego (julgamento de Deus) e estabelecer uma alternativa de poder (Reino de Deus) que desse ao povo condições de liberdade e vida. Daí cresce, resplandecente, a fé na ressurreição. Ela tem, fundamentalmente, o sentido coletivo: “os filhos do teu povo e teu povo… após o tempo de muita angústia…  serão salvos” (l2,l); também “o povo santo…  após a situação de esmagamento… participará das coisas maravilhosas” (12,7); “os que dormem… acordarão” (l2,2); “os sábios (esclarecidos) resplandecerão” (12,3) e “os sábios… compreenderão”; “os justos (os que ensinam a justiça) … brilharão” (l2,3); “muitos… terão a posse da verdade” (l2,4) e “muitos… serão purificados, alvejados e acrisolados” (l2,l0) e ainda “o que aguarda…será bem aventurado” (l2,l2). Esta última expressão, além de referir-se ao povo, revela também a fé pessoal que guarda a certeza da recompensa eterna a cada um que persevera.

O texto revela ainda que a ressurreição será uma realidade que atingirá também “os ímpios que dormem… pois despertarão como os justos, porém para o opróbrio” (l2,2) e diferentemente dos sábios que compreenderão toda a verdade, “os ímpios não compreenderão” (l2,10).

É o Povo  = Daniel = Homem  (Filho do Homem)  quem  é  o  sujeito  histórico central que vai receber de Deus a recompensa da vida eterna. Miguel (l2,l) é, na tradição judaica, o principal dos anjos.  Seu nome significa “quem é como Deus?”.   Revela-se como aquele que luta em defesa deste povo pobre, sábio, justo, santo e esperançoso. Para este povo, a Ressurreição significa o dom divino da vida plena aos que perseveram na fidelidade. O julgamento final lhe será totalmente favorável. Não é por nada que Daniel significa: “Deus é meu juiz”. E, parecendo até vingança dos massacrados, o ímpio também ressuscitará, porém receberá, como consequência de sua impiedade e injustiça, o castigo sem volta.

 

                                                EM 2 MACABEUS

Esta mesma situação de opressão, retratada na linguagem apocalíptica de Daniel provocou a revolta macabaica.O sistema grego, que tinha como centro as cidades, impunha pesada política agrícola, formando latifúndios sustentados pelo trabalho escravo. A cidade engolia, pouco a pouco, a autonomia das aldeias e as altas taxas foram acabando com os pequenos proprietários… Mas o que não foi possível aguentar foi o desrespeito total de Antíoco IV Epífanes à fé do povo judeu, fiel à tradição dos Pais.  A gota d’água aconteceu quando Jasão, irmão do sumo sacerdote Onias III, comprou o cargo de sumo sacerdote e adotou a religião grega a partir do templo de Jerusalém (lMc l,l-l5). Antíoco IV chegou a entronizar, com o consentimento de Jasão, uma estátua de Zeus no templo. Essa “abominação da desolação” (1Mc 1,54) desencadeou uma reação violenta por parte de um grupo de judeus liderados por Judas, chamado Macabeu.  Foram três anos e meio (l67-l64 a.C.) de guerrilhas, perseguições e martírios.

Interessa-nos neste trabalho, o texto de 2Mc 7,1-42. Trata-se de um relato riquíssimo, profundamente afetivo, no intuito de animar a resistência e fortalecer a perseverança dos judeus neste período dificílimo. É aí que vamos sentir bem de perto, como a fé na ressurreição leva o Povo ultrajado e massacrado a não se dobrar frente ao poderoso deste mundo e aguentar até o fim.

O núcleo central deste capítulo a fé na ressurreição como garantia de vida para além da realidade presente. Em outras palavras, o povo judeu, perseverando na fidelidade à vontade de Deus, se firmou na convicção firme da ressurreição. Deus é o criador de todas as coisas, o Senhor e Rei do mundo, o agente histórico principal da Lei revelada aos Pais e da Aliança estabelecida com o povo de Israel e é o que fará ressurgir cada ser humano para uma vida eterna.

Aparecem neste texto algumas palavras gregas que merecem destaque por iluminarem, de modo especial, a concepção a respeito da ressurreição:

l. Outra vida  (metallásso): Um   verbo  composto (allásso + a preposição meta)  que   significa “mudar, alterar, trocar” e na voz média: “tomar em troca para si”. A preposição indica o que vem depois de…, além de…  A idéia de mudança sugere que a  “outra vida” será diferente desta, mas será vida concreta transformada . No texto aparecem 4 vezes este verbo em forma conjugada (7,7.l3.l4.40).

2. Vida eterna (7,9.36). A “vida” (zoé) também significa “um modo de viver”, um “gênero de vida”; também “recursos, meios de viver”.   “Vida” vem ligada a “espírito” (pneuma: 7,23) que tem o sentido de “sopro, respiração…”. O correspondente hebraico “ruah”, substantivo feminino é a que gera vida.

3.  Receber (komizo: 7,ll.29). Verbo que na voz ativa significa “alimentar, educar, levar, transportar, introduzir, levar consigo, acompanhar, tornar a trazer, voltar”; e na voz média: “receber, recolher, obter, ganhar”.  Há aqui a ideia de receber de volta o que se perdeu ou acolher novamente a pessoa que se fora embora. Unido a este sentido aparece o advérbio “de novo”, novamente  (pálin : 7,ll.l4.23) que também carrega a ideia de “algo que acontece contrariamente…”.

4. Esperar (elpizo: 7,ll.l4.20). Indica a atitude de quem sabe que vai entrar, com certeza, na posse das realidades que acredita. Atitude que decorre do temor de Deus reconhecido como o Senhor da vida e da morte. Esta certeza na esperança dá toda a coragem para suportar a aflição pois ela é momentânea. “Aflição” é uma realidade presente em todo processo de defesa dos princípios teológicos dos quais decorrem uma postura sócio-político-religiosa coerente com eles. Isso provoca incompreensões e perseguições… Também as  primeiras comunidades cristãs sentiram profundamente em sua vida  essa aflição…

5. Lei dos Pais (7,2.30.37). A “lei” (nómos)  foi o elemento fundamental na afirmação da identidade do povo de Israel. Refere-se à “lei de Moisés” (7,6): os Mandamentos do Sinai; refere-se à tradição e aos costumes adquiridos ao longo das gerações.  Para o judaísmo,  viver segundo a Lei dos Pais (antepassados, fundadores…) significa ser fiel à Aliança (7,36) e é o que garante a salvação  que, aqui em Macabeus, é o mesmo que ressurreição.

6. Ressurreição (anástasis: 7,9.14) É a palavra que indica a  “ressurreição” propriamente dita. A preposição “aná” indica a direção “para cima”, também “através de…”. O termo indica o “erguer-se verticalmente”, um salto de qualidade para o alto.

7. Misericórdia  (‘eleos: 7,23.29). Por fim, a certeza de que a ressurreição é um dom de Deus que é Misericórdia:  Ele  se  deixa  conduzir  pela compaixão (do verbo parakaléo: 7,6. Termo que evoca o sentido de “chamar junto a si, consolar…”) e retribui a cada um conforme a vida que levou,  pois Ele é o “Deus da Aliança” (7,36),  é  o  “Senhor” (7,6.20.33) e o “Rei do mundo” (7,9) em contraposição ao déspota “senhor e rei” Antíoco IV. É o “Criador do Mundo”(7,23.28); é o “nosso Deus”(7,l8) “somente Ele é Deus”(7,37). Por isso manifestará “o  seu grande poder”(7,l7).

Impressiona a figura da mulher que aí aparece sem nome e sem marido, mãe dos 7 filhos, consolando-os e encorajando-os “na língua de seus pais”. Por fim ela também entrega sua vida como seus filhos. Ela é, sem dúvida, a imagem-símbolo do povo fiel  que, para resistir frente ao sistema helenizante, recupera a memória subversiva e elabora uma contra-ideologia. A mulher-Povo, nesta situação de violência e assassinatos, gera uma nova mística de vida que produz a perseverança.

Este texto de Macabeus está muito próximo ao de Daniel. Ambos aprofundam a fé na ressurreição a partir do mesmo contexto de repressão. A fé na ressurreição se radicaliza na insurreição. E a vida que receberão os ressuscitados não será mais semelhante à vida do mundo presente: será uma vida nova, totalmente transformada e transfigurada. Esta é a esperança que sustenta os mártires no meio de provas muito duras: o Deus  que  é  criador,  também  é  aquele que ressuscita.  Porém, para os ímpios não haverá ressurreição para a Vida resplandecente e sim para o horror eterno. Poderíamos dizer que a concepção de ressurreição do judaísmo tardio está ligada com o modo de vida que cada um leva.  Assim como vivemos, assim seremos ressuscitados: ou para a vida ou para o horror eterno.

Celso Loraschi
loraschi@facasc.edu.br